A rose is a rose is a rose et coetera

E nesses primordiais cabelos precocemente cosidos onde poderei afagar as sobras calcinadas do amor, a timidez da luz, um primeiro movimento, uma mãe?   Ano de 2015. Voltei a Coimbra e encontrei-me com o João. Tinha o manuscrito de um novo livro. Li-o e chorei. Falei-lhe do trabalho de fotografia documental que tinha feito com…

Tu, cristal em chamas derretido

(…) Tu, que em um peito abrasas escondido, Tu, que em um rosto corres desatado, Quando fogo em cristais aprisionado, Quando cristal em chamas derretido, Se és fogo, como passas brandamente? Se és neve, como queimas com porfia? (…) Gregório de Matos, do soneto ”Ardor em firme coração nascido!”   Não, não havia fogo. Até…

Será mesmo laranja ou só procura?

laranja Talvez seja laranja o sol poente ou quase cor de sangue – esse andarilho; laranja como o lume, quando é filho da noite onde o vermelho se pressente. Talvez seja laranja que desmente as cores do arco-íris que dedilho… Laranja ou só um risco ou só um trilho de pele a anoitecer tão levemente?…

Into the light

Luz opaca onde as asas se ferem e o voo fica suspenso. Ana de Santa Cruz, Fábulas Octávio Paz, em 1973, no texto La mirada anterior, Prólogo a Las enseñanzas de Don Juan, de Carlos Castaneda, a propósito de uma curiosa citação de Michaux sobre o receio da “demasiada” publicação das suas obras, afirma: “Es…

A delícia da vida

(…) E eu morrendo! E eu morrendo, Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo Tão bela palpitar nos teus olhos, querida, A delícia da vida! A delícia da vida! Olavo Bilac, In extremis (…) O que adoro em ti lastima-me e consola-me: O que eu adoro em ti é a vida!…

Íntimo do mundo

As palavras soçobram rente ao muro A terra sopra outros vocábulos nus Entre os ossos e as ervas, uma outra mão ténue refaz o rosto escuro doutro poema António Ramos Rosa, in A Nuvem Sobre a Página *** Era assim que eu queria escrever, num instante de luz e sombra, mas não sei fazê-lo. Como…

João Gostoso

Falar durante oito horas sobre a poesia de Manuel Bandeira é sempre bom, muito bom. Daqui a pouco dou o primeiro seminário e, sobre a presença dos factos e do quotidiano em Libertinagem, obra de 1930, releio o “Poema tirado de uma notícia do jornal”. Quase sempre os alunos ficam perplexos. Eu só respondo: e por…

Adágio em dor maior

This is how an angel dies. Awolnation, Sail Gustav Mahler, Symphony No. 5, Adagietto Be there, city of angels. Podia morrer hoje e tu não saberias. Não se abriria o céu, nem murchariam flores não soprariam ventos gelados nem nenhum pressentimento te assustaria. E eu podia morrer hoje, sabias? É assim que os anjos morrem. Quando…