Rosa, rainha das flores

Sabe-me muito bem voltar à literatura barroca, sobretudo à alegoria, mais ainda nos nossos tempos, e verificar como os avisos de escritoras como Soror Maria do Céu se mantêm tão atuais. Não admira, podemos pensar: é a condição humana que não muda. Em Obras Várias e Admiráveis, desta que foi por duas vezes abadessa do Convento…

Cinzas

Cortaram os trigos. Agora A minha solidão vê–se melhor. Sophia, O Nome das Coisas, 1977 Não é por estar do outro lado do mundo que as coisas do meu mundo me passam ao lado. Estas não passaram. Nem o incêndio que tudo levou na sua frente, nem as fotografias do Miguel Valle de Figueiredo que me ferem…

Hato

Hato, 23 de agosto de 2017 Até dia 23 não sabia sequer que era nome de tufão. E também não consigo lembrar-me da razão por que não saí de casa nessa manhã, enquanto o aviso de tufão se mantinha no grau 3, e não fui buscar os livros à escola como tinha pensado fazer no…

Arquivo de Macau: City. Impression

Passo regularmente pela galeria do IACM, na Avenida Almeida Ribeiro, muitas vezes sem saber que exposição que está a ser exibida. Desta vez, a exposição era de fotografias da cidade de Macau, registadas entre 1960 e 1990, desenhando arquitectura, lugares, quotidiano e pessoas que hoje já não existem da mesma forma. Vi as fotografias sozinha, tentando…

Tu, cristal em chamas derretido

(…) Tu, que em um peito abrasas escondido, Tu, que em um rosto corres desatado, Quando fogo em cristais aprisionado, Quando cristal em chamas derretido, Se és fogo, como passas brandamente? Se és neve, como queimas com porfia? (…) Gregório de Matos, do soneto ”Ardor em firme coração nascido!”   Não, não havia fogo. Até…

É a tua cidade

Sabes que cidade é esta onde caminhas pela rua a sorrir e paras a cada momento para um abraço? Sabes que cidade é esta onde o teu coração está em casa? Sabes que cidade é esta em que te envolves e sabes que não podia ser de outra maneira? Sabes que cidade é esta que…

Siren

É a tua parte de sereia que te faz entrar na água, transformares-te em espuma e confundires-te com as ondas.  

Fonte de prata

S. João para ver as moças fez uma fonte de prata. As moças não vêm à fonte… S. João todo se mata.   Não me lembro de algum ano não ter havido S. João, de não ter havido procissão pela aldeia. Este ano foi para mim muito especial. Há de valer por todos os que…

Narciso

Esse sou eu! Sinto; não me ilude a imagem dúbia. Ardo de amor por mim, faço o fogo que sofro. Que faço? Rogo ou sou rogado? A quem rogar? Quero o que está em mim; posse que me faz pobre.  Ovídio, Metamorfoses, Livro III, vv. 463-466 © Sara Augusto, 2016 Da série Fabulas.    …

Era uma vez um ganso

Senhor ganso, por favor, olhe para mim! Obrigada. Agora, se não for incómodo, para a esquerda. Isso… muito bem. E agora para a direita… muito obrigada. Está muito bem, senhor ganso. Foi um gosto fotografá-lo! © Sara Augusto, 2016. Parque da Cidade, Porto. Da série Fábulas.  

Night song

What did I do to make you feel so bad? What did I do that you would make me feel so bad? Julia Holter, Night song   Há razões na melancolia que as horas desconhecem e deixam que ela penetre cada minuto desocupado. E a melancolia vê a tua vida de forma distante, como se…

Fábula da lua

Havia uma lua enamorada do lago, do reflexo das árvores e dos juncos esguios. O nome da lua podia ser Narciso. Nas águas paradas contemplava a luz pálida, os traços de vales e crateras. Era um narciso conformado, demasiado longe para cair no lago. Talvez não haja história para contar. Havia apenas uma lua enamorada…