Narciso

Esse sou eu! Sinto; não me ilude a imagem dúbia. Ardo de amor por mim, faço o fogo que sofro. Que faço? Rogo ou sou rogado? A quem rogar? Quero o que está em mim; posse que me faz pobre.  Ovídio, Metamorfoses, Livro III, vv. 463-466 © Sara Augusto, 2016 Da série Fabulas.     […]

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Era uma vez um ganso

Senhor ganso, por favor, olhe para mim! Obrigada. Agora, se não for incómodo, para a esquerda. Isso… muito bem. E agora para a direita… muito obrigada. Está muito bem, senhor ganso. Foi um gosto fotografá-lo! © Sara Augusto, 2016. Parque da Cidade, Porto. Da série Fábulas.  

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Night song

What did I do to make you feel so bad? What did I do that you would make me feel so bad? Julia Holter, Night song   Há razões na melancolia que as horas desconhecem e deixam que ela penetre cada minuto desocupado. E a melancolia vê a tua vida de forma distante, como se […]

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Fábula da lua

Havia uma lua enamorada do lago, do reflexo das árvores e dos juncos esguios. O nome da lua podia ser Narciso. Nas águas paradas contemplava a luz pálida, os traços de vales e crateras. Era um narciso conformado, demasiado longe para cair no lago. Talvez não haja história para contar. Havia apenas uma lua enamorada […]

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Ten seconds of Joana’s cat.

Era difícil não ter Baudelaire na cabeça enquanto fotografava a Gata: “Espelho meu, espelho meu, quem é mais gata do que eu?” És tu, Joaninha. Le chat Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux; Retiens les griffes de ta patte, Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux, Mêlés de métal et d’agate. Lorsque mes […]

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She’s got the look

Why must a photograph be a mirror? William Kleine. Só se for uma mîse-en-abyme… abrindo portas sobre portas para a imaginação, como um corredor que se prolonga indefinidamente, multiplicando pormenores. Ela olhou, na altura certa. E toda a leitura da fotografia se deslocou, estabelecendo um percurso distinto. A fotografia não é um espelho… são arestas […]

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White big thing

Na verdade, eu não sei que seja aquela coisa branca enorme que agora está no meu céu de sempre. Mas é imensa e bonita. Queria ser o primeiro pássaro a voar sobre ela, a primeira gaivota a pisar a areia daquela praia. “Pensamentos da gaivota que olhava a lua com o mesmo espanto da primeira […]

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Todos os teus gestos são aves

Todos os teus gestos são aves. Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Não creio que alguma vez ele tenha pensado que valia a pena. Mas eu pensei e só isso me interessa e, na verdade, só isso é importante. Ana de Santa Cruz. A minha varanda é uma armadilha. As vidraças são amplas e as aves […]

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Chamo-me ovelha

Fiquei quieta a olhar. Decorei-lhe o gesto e vi como a paixão florescia entre as mãos e os olhos. Recolhi a luz dentro de mim. Ana de Santa Cruz Eu olhei primeiro e voltei para trás. Pedi-lhes que esperassem e apressei-me a mudar de objectiva. Aproximei-me do muro, sorrindo e fotografando ao mesmo tempo. Elas […]

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Quando quis ser pastora

Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras coisas E cantavam de amor literariamente. (Depois — eu nunca li Virgílio. Para que o havia eu de ler?) Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio, E a Natureza é bela e antiga. Alberto Caeiro   Eu li Virgílio, em latim. Uma  coisa deliciosa. E por […]

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