Rosa, rainha das flores

Sabe-me muito bem voltar à literatura barroca, sobretudo à alegoria, mais ainda nos nossos tempos, e verificar como os avisos de escritoras como Soror Maria do Céu se mantêm tão atuais. Não admira, podemos pensar: é a condição humana que não muda. Em Obras Várias e Admiráveis, desta que foi por duas vezes abadessa do Convento…

Alma de sete cores

Tinha o céu da minha alma as sete cores, valia-me este mundo um paraíso, destilava-me a alma um doce riso, debaixo de meus pés brotavam flores! (João de Deus, “A Vida”) No dia 26 de fevereiro vou falar sobre João de Deus, a “alma de sete cores”, numa das salas do Museu Nacional Grão Vasco,…

Inferno de martyrios

*** Lidar com miscelâneas pode ser a coisa mais surpreendente do mundo. Hoje é um desses dias de surpresa. Tenho estudado a literatura de viagens, centrada essencialmente nas viagens no sul da Europa, tendo sobretudo Roma como destino privilegiado, cidade dos papas, centro do mundo, a Urbs Aeterna. Por isso nunca deixo de lado referências…

Chave de casa: nosce te ipsum

Chave de casa: nosce te ipsum ou por que razão escolher a alegoria. *** Sem me levantar, pego a caixinha na mesa-de-cabeceira. Dentro dela, em meio a pó, bilhetes velhos, moedas e brincos, descansa a chave que ganhei do meu avô. Tome, ele disse, essa é a chave da casa onde morei na Turquia. Olhei-o…

Ut pictura fictio

*** [A Riqueza] Era uma mulher de luzidos olhos, prateada tez, dourados cabelos, vestia de tela de prata, e assim manto como roupa bordava de botões de ouro, gala que estudar-se-lhe o ser, fora injuria, a cabeça era um tesouro de joias, e quanto mais leve na consideração, mais capaz de fazia para o peso….

Aleg(o)ria

Le plus grand mystère est que nous tirions de nous-mêmes des images assez puissantes pour nier notre néant. A. Malrauz, La condition humaine. Falo melhor quando falo do que gosto, daquilo que já se entranhou dentro de mim e continua a fazer-me descobrir coisas novas, desafios diferentes. Foi o que aconteceu ontem, sem saber bem…

A condição humana e a alegoria

Il est très rare qu’un homme puisse, comment dire? Accepter sa condition d’homme.  André Malraux, La condition humaine (1933) Falar da condição humana, falar do desconhecido e do que está para lá do entendimento, sempre foram condições favoráveis à utilização da alegoria, entendendo esta como um procedimento que permite ou exige que um enunciado tenha…

“Doze novelas” para as Figuras da Ficção 4: colóquio internacional

***** Uso de deidades, adorações, sacrifícios, entregos da alma, e outros hipérboles introduzidos como licenças poéticas, frases amorosas, e não em verdadeiro sentir, enquanto são gala do dizer e não desvios do sentir católico; isto, e tudo o mais, sujeito à censura da Igreja como filho dela. Gerardo de Escobar, Doze novelas, “Protestação do Autor”….

Peregrino do Paraíso: gramática da criação

O número 2 da revista Teografias, de 2012, foi um dos mais interessantes, com o tema Gramáticas da Criação: Adão, Eva e outros mitos. Para este artigo fui buscar uma das narrativas barrocas mais significativas e dei-lhe por título “Peregrino do Paraíso: o compêndio narrativo de Nuno Marques Pereira“. Foi uma revisitação bem interessante e…

Teografias I: guerra interior, conversão e alegoria

Está disponível online o primeiro volume do projeto Revista Teografias, impresso em 2011. Naquela altura falei da Guerra Interior, de Matias de Andrade, ainda em preparação artigo com o título Guerra Interior: conversão e alegoria. Os objetivos foram cumpridos: Com o estudo desta narrativa alegórica, de edificação, reflexão e didática religiosa, a Guerra Interior (1743), de…

Metamorfoses da santidade

O António Manuel sabe que o tema desde colóquio, “metamorfoses da santidade”, não me passaria nunca ao lado. Por muitos motivos, mas sobretudo pelas simpatias da alma que me ligam à literatura espiritual barroca, que constitui um vasto manual para esse estado de conformidade entre a vontade do homem e a vontade de Deus. Contudo,…

A excelência da subversão

Obras de Misericórdia? perguntou Floriteia, “entendo-as em mui diferente sentido que aquele comum, que lhe deu este nome, assim não tenho nenhuma devoção com elas, nem hei-de ter nenhum exercicio”. Agravo e desgravo da Misericórdia, BPMP, ms, fl. 1v. Da subversão nasce a imaginação? Ou o processo é inverso? Artigo em construção: As figuras da ficção…