Saí de casa com a câmera fotográfica, atravessei a estrada, andei dez metros, fotografei o portão em frente, e voltei. Pouco tempo, poucas fotografias. Apenas o suficiente para criar metáforas e metalepses, mundos dentro de outros mundos e entre mundos. Começa a definir-se uma ideia central e acho que cada artigo sobre fotografia deste blogue acentua uma linha que, de forma muitas vezes inconsciente, vou trilhando.
O portão é velho, ninguém dá nada por ele. Mas não desisto de coisas velhas, aparentemente desinteressantes. Faço este exercício algumas vezes; nem sempre resulta, mas não costumo desistir à primeira, mesmo que tenha de apagar todas as fotografias. Desta vez não foi preciso ficar a olhar para o portão durante muito tempo. O desafio foi olhar para além dele e descobrir que luz era aquela que apenas pressentia. E fazer com a câmera fotográfica o fizesse também.
Metáfora fácil, eu sei, e não queria desenvolvê-la porque me parece óbvia, gasta, e eu não tenho nem a agudeza nem a arte dos mestres barrocos para lhe dar novo brilho e nova vida. Apesar disso… por detrás de um portão velho e abandonado havia um mundo de luz, um hortus conclusus, uma imagem abreviada do paraíso. Apetecia-me perguntar à Tatiana Salem Levy onde está a chave deste portão? Eu sei que eu mesma responderia com uma alegoria formal e formalizada: a chave está dentro de ti. Como eu disse, demasiado fácil.



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