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Há nestes dias, quando o frio faz teias entre o quarto e a sala e o cheiro das lareiras se estende pelas ruas, uma memória pungente da felicidade. Hesitei em escrever isto. Talvez devesse ter escrito “memória pungente dos momentos felizes”, mas isso é pouco. Talvez não nos sejam dados a viver muito e muitas vezes estes estados de bem aventurança, porque o são mesmo, quase estados de revelação, mas quando acontecem são tão corpóreos que pensamos que estiveram sempre ali e não os víamos. Aflige-me esta ideia de felicidade existente num universo paralelo, apenas entrevista, sentida e vivida, revelada em golpes de luz, em sorrisos ou num abraço, num verso ou numa nota de piano e em muito mais. Por isso, há nestes dias, quando as noites são maiores, uma memória mais viva da felicidade… cultivo essa memória com toda a vontade de que sou capaz, para não deixar nunca de reconhecê-la. Para que ela nunca me passe ao lado, nesse mundo estranho onde vive.
Quando a Joaninha se virou para mim, naquela tarde de verão, quase parei. A luz parecia que se movia em volta dela e eu sabia que queria torná-la eterna, a ela, quase anjo, à luz, fulgurante, a mim mesma, aprendiz de outros mundos.
Hoje, quando senti o frio envolver-me, pareceu-me que tudo estava errado. Neste fulgor, revelado naquele instante, de uma forma que me deixou atordoada, tive a certeza que somos feitos de luz e que para a luz voltaremos.

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