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Nolite ergo soliciti esse in crastinum. Crastinus enim dies solicitus erit sibi ipsi: sufficit diei malitia sua.
Mateus, VI. 34
Parei aqui. São Mateus faz-me destas coisas: obriga-me a repetir e a repetir as leituras e a voltar mais tarde. São coisas tão simples da vida que reconheço subitamente e que me deixam sem fôlego com a forma poética e definitiva como são ditas.
E quando os dias são pesados e as noites mais ainda, há neste apelo sentido todo um programa de vida: não queiras preocupar-te com o que ainda não aconteceu, com o que está no amanhã, com o que apenas existe ainda na tua imaginação, na tua ansiedade, nos teus medos ou nas tuas esperanças.
Mas o mais fundo, que me deixou pregada na cadeira, com os olhos fixos, tentando entender tudo o que ali estava escrito, do modo mais simples, foi aquela certeza de que o dia de amanhã cuidará de si mesmo. As preocupações de amanhã não são para hoje; amanhã saberás, amanhã resolverás, pois já bastam a cada dia os seus cuidados. Não acrescentes o que não é para acrescentar.
E tudo isto me levou a esta fotografia, uma das minhas preferidas. Já fotografei dentes de leão algumas vezes (aqui) e a simbologia de uma flor que se desfaz com o sopro não podia escapar à minha mundividência barroca. Parece o emblema perfeito da inquietação e da efemeridade.
Mas esta fotografia prende-me. A flor está inteira mas já não está completamente. As partes soltam-se e ficam quietas, suspensas no tempo e no espaço. A fotografia interrompeu o processo de desagregação, mas a flor ficará num eterno desassossego. E era tão fácil passar à metáfora… mas hoje não, por hoje basta.


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