Como não te adorar, se só tu és adorável? Como não te amar se só tu és digna do amor?
Livro do Desassossego
You are a lover. Borrow Cupid’s wings
and soar with them above a common bound.
Shakespeare, Romeo and Juliet
A sala estava decorada com máscaras e cupidos que seguravam grandes corações vermelhos. Quando ele disse aos outros este é meu, ninguém discutiu e com a bengala conseguiu apanhar o fio que segurava o cupido e puxá-lo para baixo. Olhou à volta e procurou-a. Parecia-lhe que o coração que o cupido segurava batia ao mesmo ritmo furioso do seu. Parecia também que o coração lhe batia nos olhos, porque não distinguia entre as sombras a luz que desde alguns dias o iluminava, e lhe latejava na boca, porque se sentia incapaz de articular qualquer frase com sentido e mantinha um sorriso que não conseguia apagar. Gosto de ti, princesinha. E procurou-a, guardando o cupido e o coração, desenhados em esferovite e já com os cantos quebrados, procurou pela face miúda de pele branca e macia, pelos lábios rosados, pelos olhos meios de água, pelos cabelos castanhos que cheiravam bem e que ele tocara, deixando a mão passar levemente pelo colo de corça assustada.
Onde estás, andorinha? Enquanto procurava lembrou-se das escadas e das ruas estreitas, descidas de mão dada, e como ele gostava de guardar a mão dela tão pequena na sua, das horas sentados junto do rio, quando os olhos dela ganhavam as cores prateadas da água, e com voz quase desmaiada e olhos rasos lhe recitava os desassossegos do livro de cabeceira e do dia a dia.
Adivinhou-lhe o corpo na figura esguia junto das grades, olhando para as luzes que eram ensaiadas no palco, o cabelo entrançado, a corrente de prata sobre o peito. As mãos estenderam-se, ela segurou o coração e sorriu de leve. Encostou a face no peito dele e ficou quieta. Podia ser que o tempo parasse.


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