Olhei uma vez e vi. Da segunda vez passei mais devagar. À terceira parei e fui ver.
Talvez a beleza do lugar tenha a ver com a geografia, entre casas baixas, casas altas e horizontes entrevistos. Ou terá a ver com as ruas que ali se cruzam, a Couraça dos Apóstolos e a Rua das Flores, nomes que trazem na palma da mão impressões que conjugam efemeridade com intemporalidade. Mas com toda a certeza terá a ver com as pinturas, com as cores, com os sorrisos que fazem despontar a cada descoberta. E são tantas coisas para ver devagarinho. Fiquei muito tempo e fotografei imenso.
Pouco a pouco vou-me encontrando nesta cidade. E gosto tanto de fazê-lo sozinha com a câmera fotográfica por perto. Tanto quanto gosto, mais tarde, de beber um chá no Machado de Castro e contar e mostrar o que vi. Como se tivesse feito uma viagem a um mundo longínquo, perdido noutra galáxia ou no canto mais remoto de uma imaginação prodigiosa.
Não sei quem pintou. Não sei quem tem tanto afecto nas mãos que desenham jardins mágicos nas paredes de uma rua sombria donde se vê o rio. Há quem olhe para uma parede nua, para portas e janelas despidas, e veja um mundo colorido, habitado por aves e gatos, flores e árvores, e onde, de uma mão estendida, se espalham corações, olhares, amores, paixões, sonhos, vidas, tempos, saudades, ternuras, noites e dias. Encontro-me nesse olhar.
Mas eu vi esse mundo. E quando choveu fiquei sobressaltada. Mas como não saber, nesta altura, que a beleza mais fulgurante é passageira? Foi por isso que fotografei. Porque vi. Porque quero que dure. Porque quero que vejam.

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