O solar da menina loira

Conheço este solar desde menina. A minha mãe era professora na escola da aldeia e eu tinha uns três ou quatro anos e usava e abusava da prerrogativa de ser filha da professora. Era loirinha, com dois laços no cabelo e devia ter sorriso e palavra fácil, pelo menos naquela altura. Nunca deixei de ir a Santiago nos anos seguintes e passava longas semanas com os meus tios, em passeios de Verão com sabor a avelãs, uvas e figos, e sestas cheias de histórias que a tia Graciete contava com tanta graça. Lembro-me que lia muito, deitada na cama da minha prima, os livros dela, os meus, tudo o que havia.

Lá, mais afastado estava o Solar. Sim… na altura já tinha lido todo o Júlio Dinis e muitos Ivanhoes de Walter Scott, e até a Dama das Camélias, bem às escondidas, e os amores de Jorge e Maurício, da Casa Mourisca, eram o cenário certo para as deambulações amorosas de uma menina cada vez menos loira. Não menos tonta, apesar de sincera. Também havia as histórias mais antigas que a minha avó me contava de fidalgos que atravessavam a aldeia a cavalo e lhe traziam as filhas à janela.

Conheci a quinta e conheci o solar. Bebi do leite ainda quente, acabado de mungir; vi a azeitona desfeita em azeite límpido; comi do queijo dos rebanhos que se estendiam pelos campos com a Estrela ao fundo. Só mais tarde conheci o solar, construção antiga, esplêndida. Nunca conheci os fidalgos.

Uma destas semanas, quando vinha de visitar uns amigos, uma tarde quente, parei no fontanário do solar, quando a luz se tornava mais de oiro e as memórias mais doces. E fotografei, devagar, muito devagar, completamente concentrada nos jogos de luz e sombra, nas pedras raiadas, nas plantas e na água que caía da concha. Passaram quarenta anos. Mas não parecia.

3 respostas a “O solar da menina loira”

  1. Avatar de maria da graça augusto
    maria da graça augusto

    Que bonito trabalho minha filha!!!!Que belas recordações!!!

    1. Tenho muito boas recordações daquela altura!

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