Gosto de surpreender a minha avó. Às vezes entro na sala e dou-lhe um beijo no cabelo sem ela estar à espera. Raramente se assusta a não ser que esteja a dormitar. Nessa altura acordo-a a ela e às outras velhinhas todas da sala. Na verdade nunca visito só a minha avó; acabo por saber também de todos os outros que habitualmente encontro e cumprimento.
Outras vezes espero alguns minutos e fico a observá-la. Vejo a forma como está atenta ao que se passa à volta, o programa de televisão que lhe interessa, as mãos com o terço enrolado, que vai desfiando, como deixa descair a cabeça no sofá quando adormece, como procura qualquer coisa no saco. E depois vou ter com ela. Tem sempre um sorriso franco para me receber, mãos que pegam nas minhas e as afagam, e perguntas sobre o meu trabalho, as minhas irmãs, os sobrinhos, donde venho àquela hora, para onde vou a seguir, como está a minha mãe.
Está esquecida. Pelo menos eu, quando chegar aos noventa anos, não vou ter dezenas de netos e bisnetos para me lembrar do nome. Mas, se não se lembra do que comeu na última refeição, ou não se quer lembrar, lembra-se de muitas histórias de família que eu gosto de ouvir, casos antigos de que mais ninguém tem memória. E lembra-se da sua própria história, das alegrias e das tristezas, das tragédias e das memórias mais leves que me fazem rir enquanto ela sorri e me continua a afagar as mãos. E reza, por nós.
Também aperto as mãos dela e abraço-a. Parece que abraço toda a minha história. Sei que com a minha avó vivi dias que nunca mais se repetiram; que o poder viver perto dela me proporcionou experiências, saberes, sabores, cores, texturas, cheiros, afectos, que estão guardados dentro de mim e que definem o que sou. A minha avó lembra-me os dias de Verão e das colheitas, os dias de inverno e os ovos estrelados no azeite que fervia na concha sobre as chamas, o calor do forno onde cozia o pão e as bolas de sardinha, a água fresca nos pés a regar a horta, os bolos das romarias, a comida com aquele sabor que só ela lhe dava. E o cheiro do trevo acabado de cortar? E a cor dos grãos de milho espalhados na laje? E o sabor das uvas da quinta? Começo a lembrar-me e o novelo desenrola-se, sem parar. Quando chego, e a surpreendo sozinha e calada, pergunto-me: em que pensarás, avó? qual das memórias dos teus quase noventa anos te ocupa agora? Em que momento feliz te demoras? Que dor te deixa agora os olhos molhados?
No outro dia levei a máquina fotográfica. Hei-de voltar a levar e a fotografar sem tanto medo olhos e mãos tão cheios de vida.
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